sábado, 13 de setembro de 2008

Entrevista: Marina da Silva Feliciano



Eu sou a Marina da Silva Feliciano, nasci 31 de Maio de 1947, tenho 61 anos, sou merendeira aposentada, nasci em São Paulo. Minha infância foi a muitos anos atrás, muito sadios, aqui mesmo no Jardim Soares, muita simplicidade, não tinha conforto nenhum, nem água e nem luz, mais foi uma infância muito boa porque tinha meus pais, nós estudávamos, brincávamos, fui muita bem criada pela minha mãe. Ela me ensinou muita coisa boa, a gente brincava em frente de casa, de pular corda, de roda, de passa anel, de pega-pega, balança, onde amarrávamos nas arvores contar histórias e boneca de pano que nós mesmas confeccionávamos.
Os carrinhos dos meus irmãos eram de madeira, aquelas madeiras que brincavam de perna de pau, também tínhamos bola, peteca e bambolê. As panelinhas eram de latinha de massa de tomate, as comidinhas eram de verdade e o fogãozinho era de tijolo. Às vezes minha mãe comprava aquelas bonecas de plásticos bem baratinhos.
Minha casa era simples, de fogão a lenha, de tijolo, água de poço, sem esgoto, sem luz elétrica, tínhamos alguns lampiões à vela, porém não usávamos muito porque minha mãe não gostava, achava perigoso, brincávamos com meus vizinhos na frente de casa, à noite na escuridão, a luz era a lua e os vaga-lumes que tinha no mato.
Uma coisa muito importante para mim, foi o meu primeiro emprego, pois precisávamos muito trabalhar, eu tinha 13 anos, parei de estudar, poderia ter continuado, porém não quis. Era muito novinha, trabalhava numa fábrica de tecelagem, naquela época podia trabalhar cedo, mais precisava de um atestado do juizado de menores para poder tirar a carteira de trabalho, tirei-há com 14 anos.
Tudo que aconteceu comigo antigamente, acredito que me influenciou no que sou hoje, pela educação que recebi de meus pais e da vida que tive quando criança, era muito bom àquela época, não tinha maldade, assalto, andava pela rua à noite no escuro com farolete para iluminar as ruas onde passava, não tínhamos medo, os portões não tinham chaves, era apenas uma madeirinha para fechar os portões e não tinha muro.
Minha mãe fazia vários tipos de doces, de frutas que plantava no quintal, doce de caramelo, pegava uma caneca de água e pingava e fazia aquela bola gostosa e dava para a gente comer, às vezes até tento fazer em casa e não consigo, fazia também muito doce de mamão, doce de abóbora e cocada, sempre fazia coisas diferentes, porque era tudo muito difícil, bolacha, por exemplo, hoje a turma não sabe qual comer, pois existem vários tipos e sabores, naquela época nós comprávamos bolachas soltas, por quilo, minha mãe comprava um quilo de bolacha para passar um mês inteiro, então cada dia comia uma só, quando meu pai recebia seu pagamento pagava a conta que era feita nos armazéns através de uma caderneta, deixava o dinheiro do pão e do leite certinho para o mês, se faltasse alguma coisa tinha que esperar até o outro mês para comprar.
Nós esperávamos nosso pai chegar do emprego, à noite, na escuridão ia com ele pagar a conta da caderneta no armazém e para deixar a lista de compras para eles entregarem no outro dia, trazia alguma coisinha para minha mãe fazer no jantar, às vezes minha mãe preparava a comida e a gente já estava dormindo.
Muitas vezes meu pai, ao sair da fábrica, comprava no caminho de casa uma mexerica, não comia e chegando a casa a dividia entre todos, às vezes comprava pão, trazia em sua bolsa de couro, lembro-me até hoje, o cheiro de couro que ficava no pão.
Aos domingos era macarrão, muitas vezes feito em casa mesmo, depois comíamos uma fruta nós pés, pois como já comentei minha mãe plantava legumes, verduras e frutas. Hoje mesmo tenho em minha casa várias plantações, inclusive ervas para fazer comida.
Minha mãe foi uma pessoa que não reclamava, ela costumava dizer que hoje tem de tudo e as pessoas reclamam, até eu mesma, então dou bronca em mim por causa disso, agora estou mais evoluída.
Nunca ficamos sem comer, ela fazia uma polenta ou qualquer outra coisa, mas sempre tinha o que comer, ficar sem comer a gente não ficava. Minha mãe foi uma pessoa admirável, nunca reclamava de nada e quando podia começar a viver melhor, tiver uma vida com mais conforto, com luz elétrica, água encanada, televisão em casa, morreu aos 47 anos, seu coração enfraqueceu, é uma pena. Penso que morreu muito cedo, mais deixou as sementes que germinaram em minha família. Obrigada.

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